Ainda bem que existem pessoas de bom coração no mundo. É perto delas que eu vejo o quanto faço pouco e como os outros não se preocupam com o resto. Uma das partes do meu trabalho é fazer algumas matérias para o informativo interno do Grêmio. A pauta que mais me chamou atenção foi sobre aulas de alfabetização para os funcionários que aqui trabalham. Decidi agilizar o máximo que fosse possível e falei com a professora e fundadora da ideia, Suzana Foernges. A ideia surgiu há cinco anos e dura até hoje; pena que são poucos os que seguiram. Tudo por causa de horários, cansaço, rotina difícil - e os motivos têm sentido.
Suzana ficou sabendo da existência de pessoas analfabetas quando foi entregar uma receita de um pastelão para uma senhora. Só que ao invés de ler, a senhora guardou o papel. A partir daí que ela notou que alguns têm vergonha de admitir e viver com isso. Graças a essa ideia que o projeto surgiu.Hoje, um deles está lá todas as terças e quintas. O João.
Eu fui até a sala onde a entrevista aconteceu e fiquei esperando junto da professora o aluno dedicado. Ele chegou com um caderno no Grêmio embaixo do braço e uma pasta. Confesso que foi difícil não abraçar ele e parabenizar por aquilo que ele estava fazendo. É muito emocionante ver pessoas que ajudam e que querem aprender, mesmo que seja depois dos 56 anos de idade. É o caso dele. Ele me contou que quando criança não teve como estudar, era tudo longe, caro e eles não tinham condições. Passou a vida pedindo ajuda para acertar qual ônibus pegar, qual era o preço de cada comida... Muita dificuldade, além de tudo o que ele já passou. Na conversa contou quantos empregos já foram desperdiçados por não saber preencher a ficha de inscrição. Hoje, são 26 anos no Grêmio.
No início das aulas era difícil acertar até como segurar a caneta, aprender todas as letras, números, escrever, ler. Eu penso o quanto isso deve ser difícil depois de todos esses anos sem nem ter ideia do que é aquele desenho chamado de letra. Se crianças já levam um certo tempo até lerem, imagino um senhor que nunca foi apresentado ao alfabeto. É engraçado até pensar, mas eu me sinto muito pequena perto de uma pessoa que faz tudo isso. Sempre tive tudo na vida, colégio e faculdade, livros pelo preço que fosse, material e ainda tinha a audácia de reclamar.
Como se isso já não fosse o bastante, ele me falou que tem uma filha que faz duas faculdades. Sim, duas! Direto e Psicologia. O outro filho está no colégio. Que exemplo, não? Creio que se o mundo tivesse um pouco desse pensamento que o João Carlos tem muita coisa seria diferente. O caderno dele é caprichado com uma letra que, para quem olha, não é de uma pessoa que está escrevendo há apenas três anos. Os temas e exercícios dados são feitos com disciplina e dedicação. Mesmo que as aulas sejam de no máximo uma hora de duração já valem a pena. Aliás, essa horinha que ele separa para as letras é do descanso do almoço dele - mais um motivo da desistência dos outros.
A foto abaixo é de uma das aulas do João. Espero que o número de alunos aumente e que todos os envolvidos no projeto tenham uma boa recompensa por toda essa dedicação - além de ver o progresso dos alunos. Que mais pessoas tenham atitudes que fazem a diferença como essa!


Que bonito Vitorinha! Adorei essa matéria.. realmente, dá alegria ver como tem pessoas disciplinadas e determinadas como esse senhor. E a gente reclamando por pouco.. tsc tsc
ResponderExcluirA MELHOR MATÉRIA COM CERTEZA!
ResponderExcluirte amo branquinha bjos mana