Eu estava indo pra minha aula como de costume. Na mochila tinha o meu estojo com uma ou duas canetas, borracha, lápis e o estilete. Comecei a faculdade há três anos, nunca gostei muito de estudar, mas precisei aprender a fazer caso quisesse realmente me diferenciar entre os outros. Todos os dias eu pego o D43 pra ir até a PUC, mas logo nesse dia eu acabei pegando o Ipiranga Puc. É mais lento, mas foi o primeiro que passou na parada.
Por sorte, tinha um lugar vazio lá no fundo, aonde tem 5 bancos grudados mais altos. Não gosto de sentar lá, mas as minhas pernas precisavam descansar um pouco. Sentei, tranquilo e pensativo sobre como eu reagiria a um assalto. Sempre penso nisso, acho que é preciso fazer isso numa cidade grande como a que eu vivo. As pessoas são ruins, cada dia a tv fala uma maneira nova de tortura e opções absurdas para se acabar com a vida de alguém. Exatamente por isso que procuro não andar com muito dinheiro no bolso, nem relógios chamativos ou qualquer coisa a mostra. Mas é sempre bom ter algum dinheiro para não levar uma facada.
A primeira coisa que me veio a cabeça são aqueles sequestros que acontecem de vez em quando. Assaltantes enlouquecidos, chapados e loucos, com armas e prontos para sairem dali com tudo o que for possível. Me lembrei também daquela moça que foi morta no Rio de Janeiro há um certo tempo. Eu não sei como reagiria, mas a única coisa certa é que as pessoas só sabem se unir em situações como essa. Todo mundo tentando se manter calmo, alguns tentando alguma estraégia para se livrar do bandido e essas coisas. Pena que isso só acontece assim. Esse sentimento de sobrevivência. A necessidade de voltar pra casa e rever os filhos, pais, mães. Só quando estamos em situações assim que nos damos conta de quão boa a vida é. Ou então do quanto somos ingratos reclamar de problemas mínimos perto de uma doença, uma morte, um assalto.
Eu me mantive quieto o percurso todo até que o que eu sempre pensei aconteceu. Um homem alto, magro e vestido todo de preto entrou já anunciando o assalto. Todos entraram em pânico e aquela feições de desespero aconteceram. Alguns se olharam como se fossem irmãos, um olhar de carinho e medo. Tenho certeza que a primeira coisa que passou na cabeça foi a família e os bens que não se compram. O assaltante tinha um saco preto que ele ia passando e recolhendo tudo o que era possível. Aqueles que demonstravam mais desespero eram mais prejudicados ainda. Davam a bolsa, tênis, relógio, celular e tudo o que fosse possível. Já os outros só davam a carteira e tudo estava normal, tranquilo novamente. A arma foi o mais assustador. É um objeto de nostalgia. Quando a olhamos com aquilo é como se a tua vida estivesse sido de 5 minutos, enquanto alguns pensam como viveram pouco. Eu fui o desesperado. Não sei o que me deu. Eu chorava e implorava por mais alguns anos pra poder aproveitar e dizer a todos que eu os amava, que eu faria tudo melhor, faria mais bem feito, ajudaria todos os que fossem possíveis. É, ele não me escutou. Eu só sei que deu um barulho alto, seguido de berros. Não lembro de mais nada. Acordei no hospital.
As enfermeiras só diziam pra eu manter a calmo, mas eu não entendia. Até que eu passei a voltar pro mundo. Não tinha como levantar, meus braços e minhas pernas eram pesos mortos. Mortos. Toda a minha família estava lá, chorando e tentando me consolar. Hoje, eu penso todos os dias o quanto eu devia ter corrido mais, ter usado meus músculos vitais pra dizer tudo aquilo que eu disse que se passa na cabeça de quem está entre a vida e a morte. Eu me limito entre as rodas e a vontade de continuar. Só tenho a certeza de que a próxima vez que eu pegar um ônibus que nem aquele eu já vou ter dito tudo, feito tudo e aproveitado o máximo pra que naquela hora eu não queira fazer isso em 40 segundos e, daí sim, acabar com os meus 40 anos sem sinais vitais.

