sábado, 28 de maio de 2011

Um dia de jornalista

- A gente queria fazer uma reportagem especial sobre como é o dia da presidiária aqui no Madre Pelletier. Mostrar como elas vivem, o lado bom de estar atrás das grades.

Caiu a pauta.

Não existe um só ponto positivo quando se está preso. Não existe vantagem em perder a liberdade, em dar satisfação para tudo que se faz, em passar a dormir com um olho aberto e o outro fechado.

Esse trabalho surgiu na cadeira de Jornalismo Online I. A ideia era fazer uma reportagem especial sobre qualquer assunto. Como boas estudantes de jornalismo, a nossa vontade é a ação, o medo, sentir na pele o que acontece em ambientes realmente pesados. Não deu outra. Decidimos fazer dentro de um presídio. Procuramos o lugar onde o perigo é preso. Onde há represália, rebelião, tensão de verdade.

No início, quando pedi autorização pra SUSEPE,
nem me passou pela cabeça que eu podia me meter numa confusão realmente grande. A única vontade era o furo. Precisava conseguir o melhor material, a presa mais perigosa, a história mais sangrenta possível. Em quantos mais pedaços a pessoa tivesse sido destroçada, melhor. Depois dos primeiros dez minutos lá dentro, mudei a minha ideia.

Bem no dia da visita, ia acontecer uma palestra sobre direito e cidadania para a mulher presa. Tudo perfeito com o que a gente queria. Aos poucos, as presidiárias foram entrando, em grupos. As chamadas galerias - como são divididas. Eu não conseguia olhar no olho delas. Sabe aquela pessoa que tu passa na rua e sente medo? Que na hora pensa: "Me ralei. Vou ser assaltada, esfaqueada, levar uma surra"? Todas elas eram assim. E pra pior. A pele não esconde o uso do crack, as brigas, o desleixo de quem passa 24 horas no mesmo lugar frio e mal cuidado.

Conforme iam entrando na sala - gelada e com espaço para umas 100 pessoas -, sentavam e conversavam como todos fazemos na espera de um evento. Uma coisa que me chamou bastante atenção era a maneira como eram tratadas. Enquanto, com a minha ingenuidade, tirava fotos feliz da vida, uma presidária entrou e perguntou: "É aqui?". Respondi normal: "A palestra? Sim, é aqui. Pode entrar". Na mesma hora, uma agente penitenciária berrou do fundo: "PASSA TE SENTAR!". E aponta o lugar ao lado das colegas. Eu achei uma falta de respeito. Ela só tinha perguntado se era ali. Depois de uns segundos eu relembrei que ela era uma prediária.

Depois de uma meia hora de atraso, os palestrantes começaram a se apresentar sempre com aa resposta em coro e em tom infantil: "Boa tarde". Durou cerca de uma hora e meia e, sem dúvida, foi um dos momentos mais tensos da minha vida. Eu não prestei atenção em nem um terço do que era dito. Só sabia todas as maneiras de sair correndo dali o mais rápido possível e como transformar as cadeiras de inox em armas letais. Fui acompanhada da minha colega de aula, Tauana Saldanha. Ela não estava tão assustada, mas consegui transformar a tranquilidade dela na mesma tensão que eu estava. E vocês já vão entender o porquê de tudo isso.

Lá dentro tinha cerca de 60 presidiárias e 5 agentes. Sessenta divivido por cinco é igual a 12. Doze presidiárias por agente? Hm, não parece tão ruim. É, não pareceria se todas as agentes não estivessem desarmadas. Inacreditável. Todas elas sem nada. Nem um cassetete. Nada. Quando eu vi aquilo logo chamei minha colega pra ter certeza, que se confirmou. Lógico que fui perguntar a uma agente.

- Vocês não andam armadas aqui?
- Não.
- Nunca? Por que?
- Nunca. Ah, isso intimida elas. Faz com que elas nos entendam como superiores e piora o nosso relacionamento com elas.
- Hm. E se acontecer uma rebelião? Elas são maioria.
- Ah, mas daí a gente consegue dar um jeito. E isso não acontece.

Me afastei, digamos que uns 70% mais tensa do que antes. E a cada movimento das presidiárias era um passo meu pra mais perto da porta. Palestra vai, palestra vem e sei lá eu o que estava sendo dito. Até que eu noto que uma moça negra, com o cabelo black power se virava a cada 5 minutos e olhava nos meus olhos. Era um olhar intimidador. Muito intimidador. Desviei o olhar o máximo que pude, fingia assistir a palestra muito concentrada enquando pensava: "Ainda bem que eu avisei a minha mãe. Se eu morrer, vai ser uma baita pauta pra amanhã". Só imaginava passeatas falando das duas alunas jornalistas que tinham sido mortas fazendo um trabalho dentro do Madre Pelletier.

Nossa, quanta imaginação fértil. Mas podia acontecer. Continuamos lá, conversamos sobre a moça que nos olhava direto e esperamos o fim da palestra - sempre tensas.

Nesse meio tempo, conversamos com uma agente que disse o que nós queríamos ouvir de um profssional:

- O que mais me preocupa aqui dentro é a segurança.

Como assim? Tu é a segurança! Nós apenas ouvimos o óbvio, mas que choca. Dói ver que o nosso país esteja em condições precárias, que os trabalhadores destes locais pensem assim e que o governo saiba e não faça nada.

Poderia me prolongar muito mais nesse post. Isso foi só o início da nossa tarde, mas deixo o melhor pra reportagem especial. Mostro pra vocês na sexta-feira que vem.