terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Hospital nunca foi sinônimo de saúde

Como não é mais possível comprar antibióticos sem receita, domingo passei o dia no Hospital Clínicas para conseguir um remédio na farmácia. Quando eu saí de casa, a ideia era passar cerca de duas horas e voltar pra farmácia. Engano meu, foram cinco horas de espera dentro de um hospital desorganizado, sujo e que desrespeita todos os pacientes.

Enquanto esperava pelo resultado dos exames, fiquei sentada entre um grupo de senhoras que estavam ali há mais de 24 horas, sentadas em cadeiras de rodas ou cadeiras normais, com os pés inchados, sem ter o que fazer, com dor e sem respostas. Os médicos passavam por ali a cada 15 minutos, com o nariz tocando no teto, sem pressa e com a testa franzida, afinal, era um domingo ensolarado e perfeito para um mergulho na praia.


Foram horas lentas e, talvez, as mais reais que eu já presenciei. A minha vontade ao ver uma médica conversando com uma senhora era o suficiente para perguntar qual seria reação dela se quem estivesse lá fosse a mãe ou a tia. Mas não, era uma senhora desconhecida, sem conhecimento sobre o que passava, sobre o que deveria fazer e o pior, conformada com o absurdo que acontecia lá dentro. Ela já tinha passado por ali várias outras vezes e quando elas me viram indignada e perguntando porque demorava tanto,elas riam. Deviam pensar o quanto eu sou nova e inexperiente para perceber que aquilo ali é um sistema que não passa por nenhuma mudança e depende de pessoas que não se interessam pelas vidas de quem está ali dentro.

A espera era dividida por alas, todas lotadas. Cada uma delas tinha cerca de dez pessoas de todas as idades, com todas os problemas e cada local se fazia uma casa para eles. Eles se tornam famílias que dividem o mesmo espaço, que guardam o lugar da cadeira quando alguém precisa ir ao banheiro, quando o médico chama, ou então, quando a enfermeira chama para entregar a marmita de comida. Uma família que conta qual o melhor chá para cada problema, uma família de que se desintegra dentro de alguns dias quando alguém recebe alta, vai para algum transplante ou, simplesmente, é avisado que ainda não chegou a hora. Sim, alguns vão até lá pra voltar pra casa e esperar. De novo, esperar a chamada, pra esperar no hospital, pra esperar por nada e esperar até ter que esperar de novo.

O sistema de saúde brasileiro é humilhante. Idosos que só pedem ajuda e que são desrespeitados por pessoas que sabem o quanto é difícil chegar até ali e o quanto eles só pedem por vida. Idosos nas cadeiras de rodas querendo ver a luz do dia, sentir o calor da rua, mas que não podem passar pela porta. São obrigados a permaneceram ali dentro, a avisarem as enfermeiras quando precisam sair para ir ao banheiro, para assistir televisão e não podem ter a companhia de um familiar. Uma prisão, sem policiais, mas com donos que são bandidos em não oferecerem um sistema melhor, por não possibilitarem o direito humano de cada um.

Foi um dos dias que mais me provou que eu estou no caminho certo, estudando jornalismo, podendo mostrar isso para quem não sabe. Espero que, algum dia, este texto e essas informações cheguem a algum superior que possa fazer diferença efetiva. Espero que as pessoas não se conformem com isso. Não é possível que vendo tudo isso ainda fiquem parados e aceitem este absurdo, que nos humilhem com todo este desaforo. Foram apenas cinco horas lá dentro, mas suficientes pra mostrar anos de corrupção e desinteresse político por um povo carente de dignidade e de direitos.