terça-feira, 26 de outubro de 2010

A nova clínica psiquiátrica

Descobri que eu tenho ido ao psicólogo sem saber. É sério, mais ou menos uma vez por semana, alguns meses eu vou mais, mas nem sequer noto que estou indo. É engraçado que a gente sempre recusa essa ideia de necessitar ajuda pra se entender. Esse medo de talvez ter algum problema que não se resolva sozinho. Só que não adianta, essa vida instável e sociável cada vez mais medida por parâmetros estereotipados leva qualquer um à loucura. Eu fui uma das vítimas.

Me peguei esses dias pensando no que as outras pessoas dentro do ônibus deveriam estar pensando e se eles - os pensamentos - fossem altos o suficiente pra se ouvir, o que seria. É, eu precisava mesmo de um psicólogo. Mas eu não consigo entender como as pessoas podem ver o mundo afora e apenas ver. Não perceber, não observar, não contestar. Ver. Pelo simples fato de estar ali. Sem a mínima vontade de viver e questionar o porquê. Qual a graça? Por que participar sem agir?

Eu penso demais, não que isso seja sinônimo de inteligência ou conteúdo cultural, mas isso me faz bem. É através dessas horas que passam voando que eu entendo alguma coisa que antes não estava clara. E ah, eu não consigo fugir do problema. É tão mais preocupante resolver depois uma coisa que incomoda hoje. E é exatamente por isso que eu estou escrevendo agora. Pra esclarecer essa montoeira de coisas que passam a mil na minha cabeça e não me deixam ler os 4 textos que eu tenho pra amanhã nem estudar pras outras duas apresentações. Eles são agitados, sério. Meus pensamentos são tão complexos, mas tão inquetantes que não seria suficiente apenas um psicólogo pra tratar deles.

Por isso que eu não vou a nenhuma clínica especializada, ela não seria o suficiente. Eu escrevo aqui pra que todas as pessoas que leem me entendam, se entendam e busquem através dos meus pensamentos loucos, outros pensamentos e que isso se junte numa harmonia mais doida ainda. Mas sabe, loucos se reconhecem. Já achei vários outros que abusam do blog como uma clínica psiquiátrica, faz bem...

domingo, 17 de outubro de 2010

Mas quanta certeza de dúvida!

Fazer sem pensar é perigoso, mas deixar de fazer por pensar muito é mais perigoso ainda. Se arrepender por ter feito é quase tão ruim quanto por não ter feito, só não é pior. Querer fazer e não poder é intolerante, mas poder e não querer é entediante. Depender dos outros para se decidir é agoniante, mas fazer com que os outros dependam de ti é preocupante.

Já ouvi de muitas pessoas que pensar demais em algumas situações é só perda de tempo. Quanto mais acho que as coisas ficam claras, mais elas se misturam e mais eu deixo de fazer. Só que quando eu faço, mais eu penso e repenso e vejo que eu estou perdendo tempo de novo.

Esperar é irritante, mas dependendo do que se espera é confortante. Nunca se sabe nem o que vai acontecer, mas quando acontece se vê que não é o que se quer definitivamente. E se nós esperarmos até a certeza e surgir mais uma incerteza? E se nós deixarmos de fazer por medo ou por insegurança quando algo é óbvio mas invisível? E se eu esperar até outra chance e ela não surgir? E se a resposta chegar mas não como eu queria? E se depois da resposta eu vejo que não se relaciona com a pergunta? E se eu ficar nas dúvidas até que elas desapareçam pelo tempo desperdiçado e não vivido?

Exatamente por isso que faço, mesmo com todas as dúvidas e indecisões existentes, mesmo com a incapacidade de compreender e fixar, mesmo com o desconhecimento do que pode vir, mas com a razão de que se não vier pelo menos foi vivido e tentado com consciência e esperança.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Sentido anti-horário

Dúvido que alguém nunca tenha pensado em voltar no tempo e viver uma que outra coisa só pra sentir aquele cheiro, sensação ou pelo simples fato de que foi bom. Se eu pudesse voltar no tempo, sentiria o cheiro de tudo o que fosse possível de novo. Primeiro seria o cheiro da capa da máquina fotográfica. Era muito bom, nem sei aonde foi parar. Voltaria também para os aniversários com todos os familiares reunidos, amigos, festas. Passeios com os pais quando eu nem sabia o que era responsabilidade, quando a gente tinha uma rotina de brincadeiras e eu fazia questão de brigar pra atender o telefone, sentar na frente do carro, escolher os presentes antes...

Quando ouço alguma música eu lembro exatamente do momento que eu vivia. Algumas me trazem lembranças boas, outras nem tanto. Assim como o cheiro, recordo de pessoas facilmente quando sinto o perfume delas no ar. Desde as músicas das reuniões dançantes, até as mais desesperadoras que eu não termino de escutar. Algumas músicas me lembram até o caminho que eu fazia na época, fosse pra ir pro colégio ou trabalho ou seja lá o que for. Mas é muito ruim sentir todas essas sensações e não poder reviver ou rever algum amigo, conhecido. As fotos têm um papel bem importante. É sempre bom olhar os álbuns e pensar em tudo aquilo que foi feito. Nas loucuras impensadas, nas decisões precipitadas e nas ações indevidas que até hoje ninguém se preocupou em desfazer, ou então, refazer melhor.

Seria ótimo se eu pudesse reviver e viver e fazer aquilo que fosse melhor, mas eu nunca sei se é ou não de fato. E isso é capaz de deixar alguém louco. Nem vou me prolongar muito, acho que eu estou tentando viver pra reviver talvez, quem sabe... Espero que eu não olhe para trás muitas vezes mais e me arrependa pelo o que já foi.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

História de verdade; exemplo de verdade

Ainda bem que existem pessoas de bom coração no mundo. É perto delas que eu vejo o quanto faço pouco e como os outros não se preocupam com o resto. Uma das partes do meu trabalho é fazer algumas matérias para o informativo interno do Grêmio. A pauta que mais me chamou atenção foi sobre aulas de alfabetização para os funcionários que aqui trabalham. Decidi agilizar o máximo que fosse possível e falei com a professora e fundadora da ideia, Suzana Foernges. A ideia surgiu há cinco anos e dura até hoje; pena que são poucos os que seguiram. Tudo por causa de horários, cansaço, rotina difícil - e os motivos têm sentido.



Suzana ficou sabendo da existência de pessoas analfabetas quando foi entregar uma receita de um pastelão para uma senhora. Só que ao invés de ler, a senhora guardou o papel. A partir daí que ela notou que alguns têm vergonha de admitir e viver com isso. Graças a essa ideia que o projeto surgiu.Hoje, um deles está lá todas as terças e quintas. O João.


Eu fui até a sala onde a entrevista aconteceu e fiquei esperando junto da professora o aluno dedicado. Ele chegou com um caderno no Grêmio embaixo do braço e uma pasta. Confesso que foi difícil não abraçar ele e parabenizar por aquilo que ele estava fazendo. É muito emocionante ver pessoas que ajudam e que querem aprender, mesmo que seja depois dos 56 anos de idade. É o caso dele. Ele me contou que quando criança não teve como estudar, era tudo longe, caro e eles não tinham condições. Passou a vida pedindo ajuda para acertar qual ônibus pegar, qual era o preço de cada comida... Muita dificuldade, além de tudo o que ele já passou. Na conversa contou quantos empregos já foram desperdiçados por não saber preencher a ficha de inscrição. Hoje, são 26 anos no Grêmio.



No início das aulas era difícil acertar até como segurar a caneta, aprender todas as letras, números, escrever, ler. Eu penso o quanto isso deve ser difícil depois de todos esses anos sem nem ter ideia do que é aquele desenho chamado de letra. Se crianças já levam um certo tempo até lerem, imagino um senhor que nunca foi apresentado ao alfabeto. É engraçado até pensar, mas eu me sinto muito pequena perto de uma pessoa que faz tudo isso. Sempre tive tudo na vida, colégio e faculdade, livros pelo preço que fosse, material e ainda tinha a audácia de reclamar.


Como se isso já não fosse o bastante, ele me falou que tem uma filha que faz duas faculdades. Sim, duas! Direto e Psicologia. O outro filho está no colégio. Que exemplo, não? Creio que se o mundo tivesse um pouco desse pensamento que o João Carlos tem muita coisa seria diferente. O caderno dele é caprichado com uma letra que, para quem olha, não é de uma pessoa que está escrevendo há apenas três anos. Os temas e exercícios dados são feitos com disciplina e dedicação. Mesmo que as aulas sejam de no máximo uma hora de duração já valem a pena. Aliás, essa horinha que ele separa para as letras é do descanso do almoço dele - mais um motivo da desistência dos outros.


A foto abaixo é de uma das aulas do João. Espero que o número de alunos aumente e que todos os envolvidos no projeto tenham uma boa recompensa por toda essa dedicação - além de ver o progresso dos alunos. Que mais pessoas tenham atitudes que fazem a diferença como essa!